sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A Sociedade dos Atores Mortos

Há alguns dias fui assistir ao filme Rogue One: uma História Star Wars no cinemaFiquei surpreso ao ver na telona o Comandante Tarkin, personagem que no primeiro filme da trilogia clássica é interpretado pelo ator inglês Peter Cushing. O novo filme da franquia Star Wars narra os eventos que são resumidos nos letreiros amarelos de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, portanto a presença da personagem de Cushing é justificável no enredo do longa. Porém o motivo de minha surpresa foi eu estar vendo o próprio Peter Cushing em cena. Um ator que faleceu há mais de vinte anos! Bem, não era exatamente ele, mas sua figura reconstruída pelo que há de mais moderno em termos de computação gráfica e a partir de um vasto banco de imagens da Lucasfilm. 
Atores que "estrelam" em filmes mesmo depois de mortos não é algo tão incomum na história do cinema. Algumas vezes, por infortúnio, os atores morrem antes de concluir as filmagens de uma produção. Nesses casos há a possibilidade do diretor aproveitar o trabalho que o ator deixou usando uma série de recursos como montagem, adaptação do roteiro, dublês e computação gráfica para finalizar o filme. N'O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus, por exemplo, o roteiro foi modificado de modo que a personagem principal mudasse as feições do rosto durante a narrativa para que assim pudesse ser interpretado por Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law nas cenas que Heath Ledger não conseguiu filmar. Outro exemplo é o filme Gladiador no qual o ator Oliver Reed foi substituído por dublês e por efeitos de computação gráfica. O mesmo ocorreu com Paul Walker em Velozes e Furiosos 7. No entanto, todos esses são exemplos de filmes em que os atores começaram a produção, mas não puderam concluir. O caso de Rogue One é diferente. Apesar de Peter Cushing já ter interpretado o Comandante Tarkin anteriormente, ele foi escalado para fazer a personagem em um filme novo.



Este curioso acontecimento do mundo do cinema me lembrou um filme de 2013, O Congresso Futurista do diretor israelense Ari Folman. Neste filme a atriz Robin Wright, que interpreta a si mesma, tem seu corpo e suas emoções escaneadas e armazenadas em um computador. Dessa forma ela não precisa mais atuar fisicamente, pois um software passa a fazer isso por ela.  A partir daquele momento o estúdio de cinema com o qual ela assinou contrato torna-se dono de sua imagem para usá-la como bem entender. Este, aliás, é o motivo de maior hesitação de Robin em assinar o contrato, seu direito de escolha sendo eliminado. Ao contrário de Cushing, a Robin Wright do filme nunca tinha interpretado as personagens dos filmes que o estúdio produziu com sua versão computadorizada. Mas assim como ela, Peter Cushing não pôde escolher estar em Rogue One 
Do ponto de vista legal, os produtores que trouxeram Peter Cushing de volta às telonas estão apoiados no direito de propriedade de imagem. Mas o uso dessa tecnologia em Rogue One abriu espaço para uma complexa discussão ética e estética sobre o uso da imagem de atores que já se foram. Até que ponto a imagem de alguém pode pertencer a outros? É válido "trazer de volta" atores falecidos? Será que nós queremos ver isso em outros filmes 


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