sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Há algo de errado com o transplante de órgãos provenientes de doadores vivos?

João e Maria se conheceram há algum tempo atrás. João estava terminando a faculdade quando encontrou Maria pela primeira vez. Maria, por sua vez, não estava nem um pouco perto de se formar quando conheceu João. Seriam necessários mais dois anos de curso para ela sair da faculdade. Curiosamente, João e Maria estavam matriculados em cursos distintos. As chances de se encontrarem algum dia eram consideravelmente pequenas, uma vez que não estudavam nos mesmos centros de ensino. Mesmo assim, seus caminhos se cruzaram em algum ponto das suas vidas, e eles eventualmente começaram a conversar um com o outro. Como compartilhavam vários interesses em comum, não levou muito tempo para que se tornassem bons amigos. E depois disso, não foi preciso de quase mais nada para que começassem a namorar. 
 


Os dois começaram a dividir o mesmo teto após terem passado alguns anos juntos. Adotaram um gato e tiveram uma filha – Pulguento e Júlia (Julinha, para os mais íntimos). João e Maria se sentiam realizados com a sua vida familiar. Eles realmente acreditavam que nada poderia abalar a sua felicidade. Mesmo a morte de Pulguento, que aconteceu repentinamente em uma manhã de Domingo enquanto estavam na Igreja rezando por uma vida iluminada, foi o suficiente para abalar o estado de euforia e felicidade em que se encontravam. Afinal, Pulguento já era um gato velho quando foi recolhido da rua. Ninguém esperava que ele fosse viver por muito mais tempo mesmo. Chorar por algo que se sabia que iria acontecer mais cedo ou mais tarde não traria o gato de volta. A vida pode ser dura, algumas vezes. Devemos reconhecer que existem coisas que estão além do nosso alcance. Mas será que somos sempre capazes de aceitar essa realidade? O que faríamos se alguma pessoa querida ficasse subitamente acometida de algum mal, chegando a correr risco de vida?



Vamos imaginar, agora, que em um belo dia João e Maria descobrem que Julinha é portadora de uma grave condição de saúde, ocasionada por uma funcionamento inadequado dos seus rins. A única maneira de ela sobreviver é recebendo um rim de um doador compatível, mas como ela é muito nova ainda, os seus pais e outros familiares não podem simplesmente doar um dos seus, pois eles seriam muito grandes para o tamanho de Julinha. E não existe nenhum doador anônimo disponível no banco de dados do hospital onde ela foi internada após ser diagnosticada. Os médicos estimam que ela tenha no máximo mais um ano e meio de vida, caso não apareça nenhum doador compatível.

Uma família feliz pode tornar-se uma das coisas mais miseráveis deste mundo em situações como essas. Julinha significava para João e Maria tudo aquilo que havia de mais precioso neste mundo. Se eles deixassem Julinha falecer sem ao menos tentar tudo que estivesse ao seu alcance para mantê-la viva, jamais conseguiriam ter uma vida normal novamente. Seriam perseguidos eternamente pela dor causada pela perda de um filho e também pelo sentimento de impotência diante da adversidade do mundo. Tendo observado a sua situação, um dos médicos do hospital onde Julinha estava internada sugeriu, como último recurso, que João e Maria tentassem ter um segundo filho. Esse segundo filho provavelmente seria um doador compatível com Julinha, e eles poderiam retirar um dos seus rins e transplantá-lo para o corpo da mesma antes dessa vir a falecer. O único problema é que uma cirurgia desse tipo em um recém-nascido seria muito arriscada. Esse segundo filho correria sérios riscos de vida para salvar a sua irmã mais velha.

João e Maria não pensaram muito antes de acatar essa sugestão. E assim que Maria entrou em fase de ovolução, os dois começaram a ter relações sexuais todos os dias sem a utilização de qualquer método contraceptivo para terem certeza de que Maria engravidaria o quanto antes. Sua estratégia funcionou, e cerca de nove meses depois nasceu Pedro, um bebê saudável e isento da condição da sua irmã mais velha. Os médicos esperaram mais três meses, após o nascimento de Pedro para realizar o transplante de rins entre ele e a sua irmã. Felizmente, a cirurgia foi um sucesso e os dois sobreviveram e agora passam bem. A família de João e Maria cresceu e se tornou feliz mais uma vez. Passaram-se mais alguns anos e Pedro nunca deu falta de um dos seus rins, e Julinha nunca mais teve complicações renais e vive graças ao seu irmão, a quem ela será eternamente grata. 



Fim de estória. Ou será que não? Tudo acabou bem, então por que nos incomodarmos? Existe algum elemento nessa estória que deveria nos causar algum desconforto ou algum tipo de estranhamento moral? Como, digamos, a atitude dos médicos ou dos pais diante do problema de Julinha e a solução que encontraram para o mesmo? A resposta de Carl Elliott a essas questões no sexto capítulo de A Philosophical Disease: Bioethics, Culture and Identity, intitulado What's Wrong with Living Heart Transplantation? é dizer que sim, existem alguns problemas morais na solução que foi encontrada para manter Julinha viva.

Em primeiro lugar, a vida de Julinha só foi salva colocando-se em risco a vida de uma terceira pessoa. Do ponto de vista moral, não há nenhum problema em se fazer transplantes de órgãos quando a vida do doador não é colocada em risco. No entanto, isso dificilmente vai acontecer, caso o doador esteja vivo. Qualquer tipo de procedimento cirúrgico, por mais seguro que pareça, pode acabar causando algum tipo inesperado de complicação médica. Isso pode acontecer durante uma cirurgia, ou mesmo depois (um paciente nunca estará isento de desenvolver uma infecção pós-cirúrgica). No caso de Julinha, a situação é ainda mais extrema, pois a vida de um recém-nascido foi colocada em risco para salvá-la. Ou pior, a vida de um ser que é incapaz de tomar decisões por conta própria. De qualquer modo, essa estória um tanto quanto 'clichê' é comovente, e as pessoas enxergarão apenas o seu lado bom. Não há perversidades em estórias de bebês que sobreviveram a alguma doença. Famílias felizes são famílias felizes. E isso tem valor intrínseco. É inadequado questionar os meios que levaram a tais resultados nesse tipo de estória! Mas, será mesmo?



Em segundo lugar, o médico que sugeriu tal solução aos pais de Julinha também agiu erroneamente. Um dos princípios básicos da atividade médica é “não causar danos”. Não causar danos, neste caso, não significa necessariamente impedir que um bebê venha a falecer quando existem alternativas, mesmo que essas sejam extremas. Para Elliott, “não causar danos” pode significar também não intervir quando o único modo de salvar a vida de um ser humano é colocando-se em risco a vida de um terceiro. Levando essa linha de raciocínio além do que foi apresentado até este ponto, podemos dizer que o papel de um médico em situações como essas pode simplesmente consistir em não manter a vida dos seus pacientes a qualquer custo, porque, desse modo, ele pode acabar ferindo um dos princípios básicos da sua própria profissão e causar danos premeditados, mesmo que esses não sejam intencionais. Isso também não significa, no entanto, que um médico deve deixar um paciente morrer quando ele pode salvar a sua vida. O ponto aqui é justamente mostrar que se deve sempre buscar uma solução preferencialmente não extrema para essas situações. Deve haver um meio termo, e nesse caso, é possível que se encontre uma solução para um dilema moral clínico, como o apresentado no caso de Julinha, que não tenha como implicação causar 'danos' a um ou mais pacientes.



Para concluir, Elliott acredita que mesmo atos considerados heroicos ou de extremo desapego em situações envolvendo transplantes de órgãos, devem ser analisados com alguma cautela. Um indivíduo que se propõe doar um órgão para um amigo que acabou de sofrer um acidente, pode não estar em posse da razão para tomar as melhores decisões. Ele pode estar emocionalmente abalado e psicologicamente sugestionável. E pode acabar tomando alguma decisão da qual vai se arrepender mais tarde. Doar um rim para um amigo em necessidade é um ato de extrema bondade, mas pode, ao mesmo tempo, comprometer a sua própria saúde e bem estar. Ele pode, inclusive, acabar precisando desse rim algum dia. Os médicos não deveriam simplesmente fazer um transplante nesse caso, sem se deixar envolver com o processo de tomada de decisões dos seus pacientes. Eles deveriam intervir, assumir um papel mais ativo e se certificar se um indivíduo quer realmente fazer o que ele deseja fazer quando talvez ele não esteja nas melhores condições de tomar uma decisão.

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