sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Você é aquilo que lhe "afeta"?

Que critérios podemos utilizar para definir a identidade de alguém? Biológicos? Culturais? Uma associação entre os anteriores? Será apropriado conceber uma pessoa como membro de um grupo específico de indivíduos que dividem entre si traços comuns uns com os outros? Será possível fazer bioética sem ter que se apelar para esse tipo classificação dos indivíduos? Será que faz sentido falar da vida de uma pessoa sem mencionar o grupo de que faz parte? No segundo capítulo de A Philosophical Disease: Bioethics, Culture, and Identity (1999), intitulado You Are What You Are Afflicted By: Pathology, Authenticity and Identity, o bioeticista norte-americano Carl Elliott chama nossa atenção para todas essas questões. 



Entre outras coisas, de acordo com Elliott, é bastante comum verificarmos na medicina contemporânea uma excessiva preocupação por parte dos médicos em tentar encaixar um paciente dentro dos moldes de uma descrição específica utilizada para identificar patologias. Uma pessoa deixa de ser ela mesma - e tudo aquilo que significa "ser ela mesma", dentro de um contexto específico - para passar a ser considerada outra coisa. E essa coisa geralmente é o mal que a “afeta”. Pior do que isso, muitas vezes uma pessoa pode não ter qualquer problema real. No entanto, é certo que será diagnosticada como portadora de uma síndrome ou complexo mesmo assim. 


Exemplificando, frequentemente indivíduos nascidos intersexuados são reconhecidos não como pessoas normais como quaisquer outras, mas como aberrações da natureza, criaturas dignas de pena e cujo futuro será marcado pela desgraça de provavelmente jamais conseguirem se encaixar na sociedade. Nesses casos, a postura dos médicos para resolver esse problema é bastante pragmática: cirurgias e tratamentos de mudança de sexo. E os pais desses indivíduos, não sabendo o que fazer e temendo o estigma que seus filhos terão de carregar, se não fizerem alguma coisa, se veem forçados a ceder à pressão de sua cultura e também ao poder coercitivo de seus médicos. 

É por isso mesmo que Elliott sugere, ainda no início do segundo capítulo de seu livro, que sociedades capazes de reconhecer essas diferenças entre as pessoas, como o fato de nascerem indivíduos com características genitais ambíguas, são mais avançadas, ou são, no mínimo, melhores de se viver do que aquelas que excluem ou “patologizam” todo ou qualquer indivíduo considerado desviante do padrão. Elas reconhecem nessas diferenças apenas mais uma manifestação da natureza humana e ser “diferente”, portanto, não é um problema a ser resolvido. Pessoas consideradas diferentes são encaradas como indivíduos normais em uma sociedade mais tolerante, contrariamente ao acontece em sociedades nas quais essas pessoas são excluídas e diagnosticadas como aberrações. Suas peculiaridades só enriquecem a diversidade encontrada na espécie humana e não representam nenhum risco para a integridade das outras pessoas. 


Nós certamente ainda temos muito a aprender com essas sociedades. Talvez os nossos médicos devessem se inspirar mais nelas e em suas práticas culturais antes de propor cirurgias para indivíduos nascidos intersexuados. Aliás, os nossos médicos bem que poderiam parar de considerar “doentes” essas pessoas e suas características morfológicas únicas.

4 comentários:

  1. Só uma dúvida, em sociedade muito diversa seria possível existir algo em comum entre as pessoas?
    Com a diversidade não traria mais diferenças e consequentemente, mais discordância entre as partes?

    Grato pela atenção.

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    2. Penso que esse algo em comum entre as pessoas talvez seja um senso de humanidade compartilhada que precisa ser urgentemente promovido. O fato de sermos todos indivíduos de uma mesma espécie, por exemplo, compartilhando de um mesmo espaço, estando sujeitos a alguns dos mesmos problemas, etc. O reconhecimento de que há diversidade e de que ela pode e até deve ser respeitada e aceita provavelmente faz parte desse senso de humanidade compartilhada ou comum. Acredito ainda que o surgimento de discordância entre as partes é inevitável. Todavia, a construção da ideia de que todos compartilhamos algo em comum, que nos faz ser o que somos, talvez amenize nossas inclinações para disputas muitas vezes infundadas.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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